Menu

 > Regional projects > CAMEVET > Harmonized Documents List > GUIA PARA A VALIDAÇÃO DOS MÉTODOS ANALÍTICOS PARA A DETERMINAÇÃO DE RESÍDUOS EM MATRIZES BIOLÓGICAS DE ORIGEM ANIMAL

GUIA PARA A VALIDAÇÃO DOS MÉTODOS ANALÍTICOS PARA A DETERMINAÇÃO DE RESÍDUOS EM MATRIZES BIOLÓGICAS DE ORIGEM ANIMAL

Abril 2011

Revisão: Maio 2013

GUIA PARA A VALIDAÇÃO DOS MÉTODOS ANALÍTICOS PARA A DETERMINAÇÃO DE RESÍDUOS EM MATRIZES BIOLÓGICAS DE ORIGEM ANIMAL

Tabela de conteúdos

1. Introdução 3

1.1 Objetivo do guia 3

1.2 Antecedentes 3

2. Alcance 3

3. Glossário 3

4. Parâmetros a serem considerados para a validação do método analítico 5

4.1. Linearidade 5

4.2. Exatidão 6

4.3. Precisão 6

4.4. Limite de detecção 7

4.5. Limite de quantificação 7

4.6. Seletividade 7

4.7. Estabilidade na matriz 8

4.8. Estabilidade na amostra processada 8

4.9. Robustez 8

Anexo 1   10

Anexo 2   11

Anexo 3   12

Anexo 4   19

1. Introdução

1.1. Objetivo do guia

Este documento tem como finalidade proporcionar uma descrição geral dos critérios considerados aceitáveis para a validação dos métodos analíticos utilizados em estudos de eliminação de resíduos de medicamentos veterinários em tecidos animais ou em outras matrizes biológicas.

Durante o processo de desenvolvimento ou adequação de medicamentos veterinários podem ser realizados estudos farmacocinéticos, de eliminação de resíduos, ou de bioequivalência a fim de determinar e analisar concentrações do analito em diferentes matrizes biológicas (tecidos, plasma, leite, ovos ou mel) de animais tratados. Essa informação é utilizada para ser apresentada perante a autoridade reguladora nos diferentes países do mundo.

A validação da metodologia utilizada durante os estudos em matrizes biológicas respalda a confiabilidade dos dados experimentais obtidos. A apresentação de métodos validados e seus requisitos são claramente definidos por diversos órgãos internacionais reconhecidos e inclusive podem ser definidos por lei. 

Este guia tem como fim a abordagem da validação dos métodos analíticos para a determinação dos princípios ativos administrados ou de seus metabolitos nas diferentes matrizes biológicas, considerando as recomendações das associações de química analítica e autoridades sanitárias.

1.2. Antecedentes

Como fundamento para este documento, utilizou-se o guia do VICH n° 49 “Guidelines for the Validation of Analytical Methods used in Residue Depletion Studies” – Novembro 2009”.

O presente trabalho, baseado nos antecedentes mencionados, tem o intuito de propor protocolos adaptados aos requerimentos e necessidades que podem ser úteis para os países da região.

2. Alcance

Procedimentos analíticos desenvolvidos para avaliar:

- estudos de eliminação resíduos com o fim de estabelecer os períodos de carência.

- estudos farmacocinéticos e de distribuição tecidual.

- estudos de bioequivalência in vivo.

Não é objetivo deste guia definir os critérios para a validação dos procedimentos no monitoramento dos resíduos pelos órgãos de controle oficial. 

O objetivo é que os métodos validados de conformidade com este guia proporcionem dados sobre resíduos que sejam aceitáveis para os órgãos reguladores na hora de determinar os períodos adequados de espera.

3. Glossário

Analito: Espécie ou entidade química em questão. Elemento que se deseja identificar ou determinar em uma amostra.

Bioequivalência: Duas especialidades medicinais são bioequivalentes quando, sendo equivalentes farmacêuticos ou alternativas farmacêuticas, suas biodisponibilidades depois da administração na mesma dose molar são semelhantes a tal ponto que pode se esperar que seus efeitos sejam essencialmente os mesmos (OMS 1996).

Exatidão: Grau de concordância entre o valor de medição e o valor verdadeiro ou esperado. (CAMEVET)

Farmacocinética: É o ramo da Farmacologia que estuda a passagem das sustâncias ativas através do organismo em função do tempo e da dose. Compreende os processos de absorção, distribuição, metabolismo ou biotransformação e excreção das sustâncias ativas. (Atualizou-se a definição CAMEVET para excluir o termo “droga”) 

Limite de quantificação (LOQ): É a menor concentração de um analito, cuja presença pode ser determinada com um grau específico de precisão e exatidão, dentro dos limites estatísticos estabelecidos.

Limite de detecção (LOD): É a menor concentração de um analito que pode ser detectado, mas não quantificada em uma amostra dentro dos limites estatísticos estabelecidos.

Linearidade: Capacidade de um método analítico de produzir resultados que sejam diretamente, ou por meio de uma transformação matemática definida, proporcionais à concentração de analito na amostra.

Matriz: Material predominante, componente ou substrato que contém o analito de interesse. A efeitos dos estudos de eliminação de resíduos es o produto animal comestível (tecido, ovos, leite, mel) que contem o pode conter o resíduo de interesse. 

Amostra controle: Refere-se a tecido, plasma, leite, ovos, mel ou outro material biológico proveniente de um animal que não foi tratado com o fármaco veterinário em estudo.

Amostra processada: É uma amostra que foi processada utilizando um procedimento analítico determinado de modo de extrair o analito de interesse. 

Amostra real: tecido, plasma, leite, ovos, mel ou outro material biológico proveniente de um animal tratado com o medicamento veterinário em estudo. 

Precisão: O grau de concordância entre os resultados obtidos através da aplicação de um procedimento analítico repetidamente a uma amostra homogênea sob as condições previstas, cobrindo a repetitividade e a reprodutibilidade. (CAMEVET)

Repetitividade: É o grau de precisão obtida com o uso de um método analítico dentro de um laboratório em um curto período de tempo, usando a mesmo analista com o mesmo equipamento. (USP 23). (CAMEVET)

Reprodutibilidade: É o grau de concordância entre os resultados obtidos pela aplicação do mesmo procedimento analítico e a mesma amostra em diferentes laboratórios.

Precisão intermediaria: Precisão que expressa variações dentro do laboratório. Inclui o mesmo procedimento de medição, a mesma localização, e medições repetidas sobre os mesmos objetos ou similares durante um período prolongado de tempo; pode incluir outras condições que envolvem mudanças. As mudanças podem incluir diferentes dias, novas calibrações, calibradores, operadores e sistemas de medição.

Robustez: É uma medida da confiabilidade do método analítico, contra intencionais mas pequenas variações dos parâmetros do método, fornecendo uma medida disso durante o uso normal..

Seletividade: A seletividade é a capacidade de um método para diferenciar entre o analito que se mede e outras substâncias que podem estar presentes na amostra analisada. Também chamada “especificidade”.

4. Parâmetros a serem considerados para a validação do método analítico

A validação de um método de ensaio de parâmetros específicos a serem considerados deve ser realizada nas matrizes selecionadas e deverá incluir, dentro da faixa analítica, o Limite Máximo de Resíduos (LMR) para a substância em estudo. Os parâmetros a serem considerados em um processo de validação são os seguintes:

Linearidade

Exatidão 

Precisão

Limite de detecção

Limite de quantificação

Seletividade

Estabilidade na matriz

Estabilidade na amostra processada

Robustez

A seguir, será descrito cada um dos parâmetros de validação. 

4.1. Linearidade

Deve-se gerar uma curva de calibração que demonstre a relação linear dentro da faixa de trabalho. As concentrações que se utilizem deverão ser correspondentes com as esperadas nas matrizes sobre as quais será realizado o ensaio (por exemplo: plasma, tecidos, leite, ovos, mel). Em outras palavras, deverão encontrar-se em torno do LMR, utilizando-se este como ponto meio da curva. As curvas de calibração padrão podem ser construídas de três maneiras diferentes segundo a metodologia:

a) Padrões em solução (solvente/buffer),

b) Matriz submetida ao processo de extração e posteriormente fortificada com o padrão. 

c) Matriz fortificada com o padrão e posteriormente processada mediante o procedimento de extração.

A linearidade deve ser descrita mediante um gráfico de regressão linear de concentração conhecida frente à resposta utilizando, no mínimo, 5 concentrações diferentes, em três vezes ao mínimo. O tratamento estatístico dos dados é realizado por determinação dos seguintes parâmetros: ordenada a origem, tangente (sensibilidade), coeficiente de regressão e repetibilidade para cada nível de concentração. A relação linear, geralmente, se descreve melhor mediante regressão linear sem ponderar, mas pode se estabelecer mediante regressão ponderada com fatores de ponderação adequados, caso haja variância não homogênea dos dados experimentais (heterocedasticidade). 

O critério de aceitação recomendado para una curva padrão depende do formato da mesma. As curvas de calibração geradas de acordo com o descrito no item c) estão sujeitas aos mesmos critérios de aceitação que as amostras fortificadas (consultar a seção 4.3 Precisão). As curvas geradas conforme os itens a) ou b) requerem critérios de aceitação mais rigorosos e é geralmente aceito pelos seguintes critérios: repetibilidade 15% e ? 0,98 coeficiente de correlação.

É possível que em alguns ensaios sejam necessárias transformações logarítmicas (p. ex., os ensaios microbiológicos) para conseguir a linearidade, enquanto que em outros ensaios (p. ex., ELISA, RIA) é possível que requeiram uma função matemática mais complexa para estabelecer a relação entre a concentração e a resposta.

4.2. Exatidão

Geralmente, se expressa como % de recuperação ou % de erro. A exatidão está estreitamente relacionada com o erro sistemático (viés do método analítico) e a recuperação do analito (medida como a porcentagem de recuperação). A exatidão recomendada para os métodos de resíduos variará segundo a concentração do analito. As médias de exatidão recomendadas em função da concentração do analito fornecidas pelas recomendações do CODEX1 se enumeram a seguir:

Concentração de analito* Faixa aceitável

< 1 µg/kg -50 % a +20 %

? 1 µg/kg < 10 µg/kg -40 % a +20 %

? 10 µg/kg < 100 µg/kg -30 % a +10 %

? 100 µg/kg -20 % a +10 %

* µg/kg =ng/g = ppb

4.3. Precisão

A precisão na validação de um laboratório deve incluir uma componente de intra-ensaio (repetitividade) e um de inter-ensaio (precisão intermediária). Em geral, não é necessário determinar a reprodutibilidade (precisão interlaboratorial) para poder realizar um estudo de eliminação de resíduos, porque o laboratório que costuma desenvolver o método é o mesmo laboratório que realiza o ensaio com as amostras do estudo de resíduos. A repetitividade e a precisão intermediária devem ser determinadas mediante a avaliação de um mínimo de três reproduções em três concentrações diferentes que representem a faixa de validação alvo (que deve incluir o LOQ) em três dias de análises.

Para fins da validação do método de ensaio, a variabilidade aceitável depende da concentração do analito. A precisão aceitável recomendada fornecida pelo guia CODEX2 se enumera na seguinte tabela:

Concentração de analito Precisão intermediaria, CV%

< 1 µg/kg 35%

? 1 µg/kg < 10 µg/kg 30%

? 10 µg/kg < 100 µg/kg 20%

? 100 µg/kg 15%

O Coeficiente de Variação (CV) da repetitividade determinada para cada ponto de concentração não deve ultrapassar 15%, exceto para o LOQ, que não deve ultrapassar 20 %3. O CV se calcula mediante a seguinte equação:

4.4. Limite de detecção

Há várias maneiras cientificamente válidas de determinar o LOD e qualquer uma delas pode ser utilizada, desde que seja apresentada uma justificativa científica para seu uso. No Anexo 1 e no Anexo 2 há exemplos de métodos aceitos para determinar o LOD, e no Anexo 3 pode ser consultado o protocolo sugerido para determinar a exatidão, a precisão, o LOD, o LOQ e a seletividade em um único estudo.

4.5. Limite de quantificação

Como no LOD, há várias maneiras cientificamente válidas de determinar o LOQ e qualquer uma delas pode ser utilizada, desde que seja apresentada uma justificativa científica para seu uso. No Anexo 1 e no Anexo 2 há exemplos de métodos aceitos para determinar o LOD, e no Anexo 3  pode ser consultado o protocolo sugerido para determinar a exatidão, a precisão, o LOD, o LOQ e a seletividade em um único estudo.

4.6. Seletividade

No caso dos métodos utilizados em estudos de resíduos, a seletividade é definida, principalmente, com relação às substâncias endógenas presentes na matriz e a os metabolitos distintos do resíduo marcador. Devido a que os estudos de resíduos estão bem controlados, os componentes administrados em forma exógena (ou seja, outros medicamentos ou vacinas veterinárias) são conhecidos ou não são permitidos durante o estudo.

Uma boa medição da seletividade de um ensaio consiste na determinação da resposta das amostras de controle. Essa resposta não deve ultrapassar 20% da resposta no LOQ. Consultar o Anexo 3 que apresenta o protocolo sugerido para determinar a exatidão, a precisão, o LOD, o LOQ e a seletividade em um único estudo.

4.7. Estabilidade na matriz

Em geral, as amostras recompiladas de estudos de resíduos são congeladas e armazenadas ao realizar o ensaio. É necessário determinar durante quanto tempo essas amostras podem ser armazenadas sob as condições de armazenamento propostas sem que sofram uma degradação excessiva antes da análise. Como parte do procedimento de validação ou como um estudo diferente, deve ser realizado um estudo de estabilidade para estabelecer as condições de armazenamento apropriadas (p. ex., 4º C, -20º C ou -70º C) e o período de tempo durante o qual podem ser armazenadas as amostras antes da análise.

Para realizar o ensaio, devem ser fortificadas amostras controle (livres de analito) com quantidades conhecidas de analito e armazenadas nas condições adequadas. As amostras serão analisadas periodicamente em intervalos específicos (p. ex., no início, 1 semana, 1 mês e  3 meses). Se as amostras forem congeladas, é preciso realizar estudos de congelamento/descongelamento (3 ciclos de congelamento/descongelamento, um ciclo por dia, no mínimo). Em forma alternativa, podem ser utilizadas amostras reais com ensaios realizados para estabelecer as concentrações iniciais. O protocolo recomendado para avaliar a estabilidade na matriz é a análise de duas concentrações diferentes em triplicata, próximo dos extremos superior e inferior da faixa de validação. A estabilidade na matriz se considera aceitável se a concentração média obtida no ponto do tempo de estabilidade especificado cumple com os critérios de aceitação da exatidão, de acordo com os resultados do ensaio de amostras do ensaio inicial de amostras de controle fortificadas recentemente.

4.8. Estabilidade na amostra processada

Frequentemente, as amostras são processadas um dia e analisadas no segundo dia ou, devido a uma falha de instrumentos, armazenadas durante dias adicionais, por exemplo, durante o fim de semana. A estabilidade do analito no extrato da amostra processada pode ser examinada, caso seja necessário, para determinar a estabilidade em condições de armazenamento de amostras processadas. Alguns exemplos de condições de armazenamento seriam entre 4 e 24 horas a temperatura ambiente e 48 horas a 4º C. Podem ser testadas outras condições de armazenamento conforme os requisitos do método.

O protocolo recomendado para avaliar a estabilidade na matriz é a análise de duas concentrações diferentes em triplicata, próximo dos extremos superior e inferior da faixa de validação A estabilidade na matriz se considera aceitável se a concentração média obtida no ponto do tempo de estabilidade especificado cumple com os critérios de aceitação da exatidão, de acordo com os resultados do ensaio de amostras do ensaio inicial de amostras de controle fortificadas recentemente.

4.9. Robustez

A avaliação da robustez dos métodos analíticos é de grande importância. É preciso avaliar especialmente as áreas do método que poderiam sofrer mudanças ou modificações com o passar do tempo. Essas áreas poderiam incluir diferentes lotes de reagentes ou diferentes datas de preparação dos reagentes, temperaturas de incubação, composição e volume do solvente de extração, momento de extração e quantidade de extrações, extração em fase sólida, a marca e os lotes dos cartuchos, a marca e os lotes da coluna analítica e a composição do solvente eluente para HPLC, o pH. Durante o desenvolvimento, a validação ou uso do ensaio, a sensibilidade do método frente a alguma dessas condições, ou a todas, pode tornar-se evidente e é preciso avaliar as variações que têm mais probabilidades de afetar o rendimento do método.

O Anexo 4 apresenta um exemplo sugerido para realizar este ensaio.

Anexo 1

Exemplos de métodos para determinar o LOD e o LOQ

Um enfoque utilizado habitualmente se conhece como a definição da IUPAC4. Nesse procedimento, o LOD é calculado como a média dos resultados de um ensaio com 20 amostras de controle (de pelo menos 6 fontes diferentes) mais 3 vezes o desvio padrão da média. O LOQ, depois, se converte na média dos mesmos resultados mais 6 ou 10 vezes o desvio padrão da média. A avaliação da exatidão e da precisão no LOQ calculado proporcionará a evidência final para determinar o LOQ. Se a % CV para a medição de repetitividade nessa concentração for inferior ou igual aos critérios de aceitação da exatidão e da precisão (Seção 3.2 e 3.3), o LOQ calculado é aceitável. 

Em estudos farmacocinéticos, de bioequivalência ou estudos de resíduos, os valores que estão abaixo do LOQ e acima do LOD não deveriam ser considerados para sua análise, a não ser que o seu uso esteja corretamente justificado.

Anexo 2

Métodos alternativos do Codex para determinar o LOD e o LOQ

O Codex Alimentarius5 recomendou um método alternativo para determinar o LOD e o LOQ. Acredita-se que o método resolve os problemas associados com o método definido pela IUPAC (ou seja, a alta variabilidade no limite de medição nunca pode ser superado) no Anexo 1. Nessa abordagem, o LOD se determina mediante um valor arredondado do desvio padrão relativo (RSD) de reprodutibilidade quando se está fora de faixa (isto é, quando 3 X RSD = 100%; RSD = 33%, arredondada a 50% devido à alta variabilidade). Esse método se relaciona diretamente com o analito na matriz e não só com o analito.

Portanto, o limite de quantificação (LOQ) corresponde ao LOD e se define como o ponto em que a RSD = 25%. Isto é congruente com o ponto em que o limite superior de detecção conflui com o limite inferior de quantificação. Como o método da IUPAC, definido no Anexo 1, a avaliação da exatidão e a precisão no LOQ calculado proporcionarão a evidência final para determinar o LOQ. Se a % CV da medição de repetitividade nessa concentração é inferior ou igual aos critérios de aceitação da exatidão e da precisão (Seção 3.2 y 3.3), o LOQ calculado é aceitável.

Anexo 3

Protocolo para a validação

A seletividade, o LOD e o LOQ se inter-relacionam e são afetados por interferências endógenas que podem estar presentes na matriz analisada. O LOD costuma ser difícil de determinar especialmente nos ensaios de cromatografia com detecção espectrométrica de massa, em que as amostras de controle realmente proporcionam uma resposta no tempo de retenção do analito. Sem resposta, é impossível calcular o desvio padrão e, portanto, é impossível determinar o LOD em função da média mais 3 vezes o desvio padrão (SD). Embora seja possível determinar a média mais 3 vezes o SD, com frequência se relaciona com o limite de detecção do instrumento e não com o limite de detecção do método. O seguinte protocolo está desenhado para determinar a especificidade, o LOD, o LOQ, a precisão e a exatidão em um estudo.

1. Recompilar 6 amostras controle de diferentes animais e realizar um estudo de detecção de possível contaminação do analito.

2. a) Fortificar com o analito cada uma das 3 amostras, no mínimo, dentre as 6 amostras controle ao tempo 0. Cada amostra deve ser selecionada aleatoriamente de modo que cada uma delas esteja representada pelo menos uma vez em cada concentração.

b) As concentrações para fortificar as amostras serão as seguintes:

b1) O LOD calculado (determinado durante o desenvolvimento do ensaio)

b2) 3 vezes o LOD calculado (equivalente ao LOQ calculado)

b3) Outras 3 concentrações que formarão a faixa de concentração esperada e que deverá incluir o LMR, por exemplo: 0,5 LMR; LMR e 2 LMR (Tabela 1).

c) Repetir o processo de fortificação no dia 2 e no dia 3, utilizando um segundo e um terceiro grupo de 3 amostras cada um (aleatoriamente), para que cada amostra selecionada fique representada pelo menos uma vez em cada concentração das 6 amostras controle. 

Tabela 1.  Exemplo de desenho de um estudo mínimo para permitir a determinação do LOD, o LOQ, a exatidão e a precisão (seis fontes/animais: A, B, C, D, E e F) em um estudo

Concentração de fortificação Animal/Fonte ID†

Dia/Medição 1 Dia/Medição 2 Dia/Medição 3

0 (Controle) B, F, D A, C, C B, E, F

eLOD* B, C, E D, F, F A, B, E

eLOQ (3 X eLOD)* C, C, E A, B, E D, F, D

Parte inferior da faixa de validação A, B, E A, C, D B, E, F

Metade da faixa de validação B, C, E C, E, F A, D, F

Parte superior da faixa de validação A, B, B D, F, F A, C, E

* eLOD = o LOD calculado  geralmente se determina a partir de estudos preliminares realizados durante o desenvolvimento do método. O eLOQ = LOQ calculado  se determina como 3 vezes o eLOD.

† cada fonte é selecionada aleatoriamente de modo que fique representada pelo menos uma vez em cada concentração nas 3 medições de validação.

3. Analisar as 18 amostras cada dia e avaliar os resultados conforme a curva padrão de calibração.

4. Indicar os resultados de concentração encontrada conforme a concentração incorporada os três dias do ensaio (análise). Isso normalizará os resultados dos dados dos diferentes dias e permitirá que todos os dados das 3 medições se utilizem para determinar o LOD e o LOQ.

5. Estabelecer um limite de decisão, calculando os intervalos de predição a ambos os lados dos valores da reta estimada por regressão linear ponderada. (Ver gráfico seguinte)

O limite superior do intervalo de predição estará fixado em função da probabilidade de um erro ? (falso positivo).

O limite inferior do intervalo de predição estará fixado em função da probabilidade de um erro ? (falso negativo)6.

Normalmente, o intervalo de predição da regressão linear se corresponde com um intervalo de confiança a 90%, isto é, com um erro ? de 5% e um erro ? de 5%. 

O ponto no eixo dos Y interceptado pelo limite superior do intervalo de confiança se denomina limite de detecção (YC), pode se transformar em concentração extrapolando este valor ao ponto correspondente da reta de regressão e daí até o eixo dos X (LC). Esse é o ponto crítico em que 50% das respostas são reais.

O limite de detecção (LOD) pode ser determinado estimando a concentração correspondente que deriva de extrapolar o valor de YC até o limite inferior do intervalo de confiança (?) e daí até o eixo dos X, ponto que se denomina LD.

6. Estabelecer um limite de determinação (YQ) multiplicando o limite de detecção (YC) por 3 (a relação aceita geralmente entre o LOD e o LOQ é 3). O LOQ (LQ) pode ser determinado calculando o ponto em que a linha YQ cruza o limite inferior de confiança ? que reduz a taxa de falso negativo para determinar o LOQ no nível que é designado a ? (normalmente 5%). 

7. A reprodutibilidade interna pode ser determinada calculando o CV% em cada concentração avaliada. A exatidão pode ser determinada comparando os resultados obtidos com os níveis de fortificação. Os critérios de aceitação da exatidão e da precisão aparecem nas Seções 2.2 e 2.3, respectivamente.

Concentration found Concentração achada

Concentration added Concentração de fortificação

Esta abordagem considera a inter-relação entre a especificidade, o LOD e o LOQ. Ao determinar o LOD e o LOQ utilizando 6 fontes de matriz diferentes, a variabilidade ocasionada pela matriz, bem como a variabilidade do ensaio, são consideradas. Dado que a especificidade dos métodos de resíduos depende da possível interferência dos componentes da matriz, esta abordagem também trata a especificidade e garante que a mesma seja aceitável no LOD e no LOQ determinados. Essa abordagem é congruente com a determinação do LOD e do LOQ especificada nas diretrizes VICH GL2 (Metodologia de validação).

Exemplo de conjunto de dados:

Realizou-se um procedimento de validação baseado na metodologia mencionada anteriormente em um ensaio ELISA.

O soro suíno de controle obtido de seis animais diferentes foi fortificado com o analito a 0, 50, 150, 300, 600 e 1200 ng/ml, o que gerou um total de 36 amostras. Dado que se tratou de um ensaio de soro e que foi relativamente fácil de analisar, os seis níveis de fortificação foram analisados em três dias. Se fosse um caso de amostras de tecido, selecionaríamos aleatoriamente 3 dos 6 animais (assegurando que cada um dos 6 animais fossem analisados pelo menos uma vez) em cada um dos níveis de fortificação para analisar durante os 3 dias do ensaio um total de 18 amostras por dia.

Em função desses três dias de análise que incluíram 108 ensaios no total (no caso de ensaios de tecido teriam sido 54 ensaios no total) se realizaram as seguintes determinações: repetitividade intradia e interdia, LOD e LOQ. Os dados sem processar e os resultados das análises estatísticas são enumerados a seguir:

Análise Nível de fortificação, ng/ml Resultados, ng/ml

Animal A Animal B Animal C Animal D Animal E Animal F

1 0 nr nr nr nr nr nr

50 9 32 59 18 18 25

150 162 160 148 145 133 128

300 251 303 331 295 270 260

600 508 514 592 513 568 609

1200 907 1186 1162 1037 1050 1097

2 0 nr nr nr nr nr nr

50 26 41 40 36 37 27

150 155 168 130 144 143 177

300 234 251 335 307 251 247

600 504 522 553 516 650 580

1200 999 1030 1037 1020 985 996

3 0 1 nr 8 nr nr 1

50 39 60 71 50 68 48

150 157 179 159 167 172 148

300 290 277 336 319 299 278

600 565 572 611 586 648 579

1200 1071 1190 1218 1262 1246 1160

nr = não resposta

Para a avaliação estatística dos dados prévios foi utilizado um modelo simples que incluiu o efeito fixo do tratamento, os efeitos aleatórios da análise, a preparação da amostra, etc. Esta análise se realizou da seguinte maneira:

- Para avaliar a exatidão do método, foi calculada a Recuperação Percentual (R%) de cada amostra dividindo a concentração achada pela concentração de fortificação antes da análise (nível de fortificação ou concentração nominal) e multiplicando depois por 100.

- Para avaliar a variabilidade no dia (Repetitividade) se calculou o Coeficiente de Variação Percentual (CV%) dividindo o desvio padrão pela média considerando os dados para todos os animais para cada nível de fortificação e multiplicando depois por 100. Calculou-se também a repetitividade global como o CV% considerando os valores para todos os níveis e todos os animais, sempre para um mesmo dia (tratamento).

- A fim de avaliar a variabilidade entre dias (Reprodutibilidade Interna), se calculou o CV% para um mesmo nível de fortificação, mas utilizando os valores de R% obtidos para todos os animais e todos os dias (utilizando um total de 18 dados). Calculou-se também a repetitividade interna global como o CV% considerando todos os níveis de todos os dias para todos os animais (utilizando, neste caso, um total de 72 dados). Este último resultado (CV% para todos os níveis e todos os dias) é uma boa medida da variação que terá o método na rotina, independentemente do nível de fortificação, dado que são considerados todos os fatores que podem afetar a precisão do método.

Os valores de Recuperação Percentual obtidos são os seguintes: 

Análise Nível de fortificação, ng/ml Resultados, Recuperação %

Animal A Animal B Animal C Animal D Animal E Animal F

1 0 nr nr nr nr nr nr

50 18,0 64,0 118,0 36,0 36,0 50,0

150 108,0 106,7 98,7 96,7 88,7 85,3

300 83,7 101,0 110,3 98,3 90,0 86,7

600 84,7 85,7 98,7 85,5 94,7 101,5

1200 75,6 98,8 96,8 86,4 87,5 91,4

2 0 Nr nr nr Nr Nr Nr

50 52,0 82,0 80,0 72,0 74,0 54,0

150 103,3 112,0 86,7 96,0 95,3 118,0

300 78,0 83,7 111,7 102,3 83,7 82,3

600 84,0 87,0 92,2 86,0 108,3 96,7

1200 83,3 85,8 86,4 85,0 82,1 83,0

3 0 1,0 nr 8,0 Nr Nr 1,0

50 78,0 120,0 142,0 100,0 136,0 96,0

150 104,7 119,3 106,0 111,3 114,7 98,7

300 96,7 92,3 112,0 106,3 99,7 92,7

600 94,2 95,3 101,8 97,7 108,0 96,5

1200 89,3 99,2 101,5 105,2 103,8 96,7

Nota: o nível de fortificação de 50 ng/ml foi inferior ao LOD e tanto os valores de R% quanto o CV% não cumprem com os critérios de aceitação, portanto, não foram utilizados para determinar a precisão do método.

Os resultados da Repetitividade para os valores de R% são os seguintes: 

Análise Nível de fortificação, ng/ml Repetitividade por Nível Repetitividade Global

DS Média CV% DS Média CV%

1 0

50

150 9,2 97,3 9,4 8,8 93,4 9,4

300 10,1 95,0 10,6

600 7,5 91,8 8,1

1200 8,4 89,4 9,4

2 0

50

150 11,6 101,9 11,4 11,4 92,2 12,3

300 13,4 90,3 14,9

600 9,1 92,4 9,8

1200 1,7 84,3 2,1

3 0

50

150 7,5 109,1 6,8 7,6 101,8 7,4

300 7,8 99,9 7,9

600 5,2 98,9 5,2

1200 5,8 99,3 5,8

Os resultados da Reprodutibilidade Interna para os valores de R% são os seguintes: 

Nível de fortificação, ng/ml Reprodutibilidade Interna por Nível Reprodutibilidade Interna Global

DS Média CV% DS Média CV%

0

50

150 10,3 102,8 10,0 10,2 95,8 10,6

300 10,8 95,1 11,4

600 7,7 94,4 8,2

1200 8,5 91,0 9,4

Nota: Devido a que não há nenhum guia que determine uma % mínima de recuperação, a mesma pode ser baixa (por ex: 40%), mas se o CV% em todas as concentrações for menor que 20%, é aceitável. O exemplo contrário seria uma molécula com uma recuperação de 95%, mas uma % de CV maior que 20% significa que há um problema metodológico.

Os resultados obtidos para o LOD e LOQ são os seguintes: 

LOD = 62 ng/ml

LOQ = 112 ng/ml

A representação gráfica da determinação do LOD e o LOQ é a seguinte:

Limit  of detection and limit of quantification graph Gráfico do limite de detecção e limite de quantificação

Concentration found Concentração achada

Concentration added Concentração de fortificação

Esta é uma maneira direta de determinar de forma pontual a precisão, a exatidão, o LOD e o LOQ em um estudo durante três dias de validação. 

A exatidão também pode ser determinada como a pendente do gráfico de Concentração Achada vs Concentração de Fortificação.

O LOD e o LOQ coincidem com o que se esperaria de uma avaliação subjetiva dos dados e, baseado nestes resultados, é lógico não ter considerado o nível de fortificação de 50 ng/ml no cálculo da precisão do método, já que abaixo de 112 ng/ml (LOQ) não é possível efetuar uma quantificação com um nível de confiança estatisticamente aceitável, isto se verifica experimentalmente ao observar os valores de concentração achada (ou de R%) e a precisão obtida para este nível, os quais não cumprem com os critérios de aceitação estabelecidos.

A precisão obtida é mais que aceitável considerando que se trata de um procedimento ELISA e que a mesma cumpre com os critérios de aceitação descritos neste documento. Durante a rotina do método, depois de obtidos entre 50 e 100 novos dados de R% (para diferentes níveis de fortificação), os valores de precisão, exatidão, LOD e LOQ podem ser atualizados. 

Anexo 4

Robustez

Pode ser utilizado o procedimento de Youden e Steiner, que permite avaliar até sete variáveis com a análise de apenas oito amostras. O método é um desenho fatorial fracionário e não permite detectar interações entre os diversos fatores.

Cada variável é estudada mediante um valor alto (A, B, ...G) (ou qualidade, quando isso não é possível) e outro baixo (a, b,...g) e se desenham oito testes conforme o exemplo da Tabela 1. Os resultados são representados com letras de “s” até “z”.

Tabela 1: Teste de Robustez de Youden para um método analítico

A partir dos resultados das análises das amostras, é possível calcular o efeito de cada uma das variáveis fazendo a média das quatro análises que contêm a variável no seu valor mais alto (maiúsculas) e aqueles que correspondem ao valor mais baixo (minúsculas). Assim, o efeito de mudança do Fator “A” para “a” se mede pela diferença:

Isto é, a média dos resultados (s+t+u+v) equivale a “A” porque as demais variáveis presentes nestes quatro resultados se anulam entre si como consequência de que existem sempre duas maiúsculas e duas minúsculas de cada variável. Analogamente, a média dos resultados (w+x+y+z) equivale a “a”.

Calcula-se o efeito de cada um dos fatores. Finalmente, o efeito de mudança de "G" para "g" se mede pela diferença (s+v+x+y)/4 - (t+u+w+z)/4.

Ao comparar os dois valores médios se conhece a influência da variável no estudo.

Para qualquer outra variável se pode proceder de maneira semelhante, como mostra a Tabela 1.

Estabelecendo as sete comparações possíveis (A-a,...G-g) pode-se conhecer o efeito de cada variável; quanto maior for a diferença, maior influência terá esta variável no método analítico. Se qualquer uma das diferenças entre as médias de subgrupos de quatro for maior que  , estas variáveis receberão especial atenção ao redigir o método, destacando a necessidade de um estrito controle para obter resultados de qualidade, ou seja, se:

Onde DS = desvio padrão entre as replicações realizadas nas condições de reprodutibilidade interna (validação) no mesmo nível de fortificação, então, esta variável se considerará crítica.

Nota 1: Os fatores a serem estudados não devem ser necessariamente sete; pode se considerar um número menor de variáveis. Isto não afetará o balanço do desenho do experimento desde que sejam realizados os oito ensaios indicados.

Nota 2: uma informação adicional do Teste de Youden é que o desvio padrão dos resultados “s” a “z” constitui uma medida excelente da imprecisão previsível do método quando se utiliza para a análise de rotina, já que este procedimento introduz deliberadamente o tipo de variação nas variáveis que pode se esperar que ocorra durante o emprego normal do método.

Frequência de revisão

5 anos

  Codex Guidelines for the Establishment of a Regulatory Programme for Control of Veterinary Drug Residues in Foods, Part III Attributes of analytical Methods for Residue of Veterinary Drugs in Foods, p. 41, CAC/GL 16-1993.

2 Codex Guidelines for the Establishment of a Regulatory Programme for Control of Veterinary Drug Residues in Foods, Part III Attributes of analytical Methods for Residue of Veterinary Drugs in Foods, p. 42, CAC/GL 16-1993.

3 Guidance for industry: Bioanalytical method validation U.S. Department of Health and Human Services Food and Drug Administration Center for Drug Evaluation and Research (CDER) Center for Veterinary Medicine (CVM) May 2001, BP.

4 IUPAC: International Union of Pure and Applied Chemistry.

5 Codex Alimentarius Procedural Manual, 15th Ed., Twenty-eight Session of the Codex Alimentarius Commission, Rome, 2005, p 81.

6 Zorn ME, Gibbons RD, Sonzogni WC.  Weighted Least-Squares Approach to Calculating Limits of Detection and Quantification by Modeling Variability as a Function of Concentration, Anal Chem 1997, 69, 3069-3075.